Promiscuidade é um tema polêmico e abrangente — quase poderia dizer que é tão difícil de definir quanto interpretar a Bíblia. Não se assustem: se você procurar a definição encontrará muita coisa absurda. E, no fim das contas, cada um acaba definindo do seu jeito.
Muitas descrições falam de pessoas que mantêm relações sexuais com múltiplos parceiros, geralmente sem um vínculo estável ou duradouro. Para mim essa ideia já basta — ponto final. Mas alguns autores e profissionais se estendem e aí é que a confusão começa: acrescentam que esses encontros ocorrem “muitas vezes sem critérios ou cuidados”. (Olha o problema aí.)
Há ainda outras interpretações:
• O termo costuma ter forte conotação negativa, associado à falta de “moral” ou “decência”. — Mas por que fazer sexo seria falta de moral, se todo mundo faz? Os moralistas escondidos costumam ser os piores.
• Pode incluir desde encontros casuais (como os que acontecem em apps) até relações abertas, swinging ou sexo em grupo. — Relações abertas são acordos; swinging e sexo grupal podem ser fetiches ou preferências. Cada um é dono do próprio corpo, não é isso que muitos defendem?
• Busca de validação — se quem escreveu isso soubesse o que acontece, especialmente nos apps e no mundo gay, talvez repensasse. Quem supostamente “está no padrão” tem uma multidão atrás; quem não está sofre constrangimentos e preconceitos nos apps. Se fosse só busca por validação, por que alguém exporia características fora do padrão, correndo o risco de receber ataques? Tenho um texto sobre isso.
• Fuga emocional — há quem use o sexo para evitar sentimentos de solidão, tristeza ou rejeição. Nesses casos, o ato vira distração. — Aqui concordo um pouco; admito que, quando estou solteiro, uso sexo como fuga, e tenho consciência disso. E daí? Se isso é ser promíscuo, qual é o problema?
• Comportamento que viola a moral — essa é uma visão antiga. O que é “moral”? Seria o homem heterossexual que tem várias parceiras até escolher uma para casar — e depois continuar saindo com outras? Por que só o gay seria considerado promíscuo? Amigas nos chamam de promíscuos por transarmos 3, 4, 5 vezes por semana, e no mesmo papo reclamam que não encontram homens para o mesmo; quando elas fazem, não são promíscuas?
Crescemos com a ideia de que o “normal” é o homem sair com várias mulheres até escolher uma para casar, e então o sexo passa a ser apenas com essa pessoa. Antigamente, talvez admitisse-se abertamente que ter amantes era comum; depois isso virou “pecado”, e a safadeza continuou — só que escondida debaixo do pano.
Com as mulheres reivindicando direitos e impondo-se mais, algumas deixaram de aceitar essa dinâmica — ou passaram a agir de forma recíproca. Ainda assim, estamos falando de traição; e os solteiros, como ficam? Casar com a primeira pessoa com quem transar?
A verdade é que a palavra “promiscuidade” carrega um peso negativo que não deveria. Ser promíscuo, estritamente falando, é ter sexo com várias pessoas sem vínculo afetivo. E qual o problema, se ninguém é obrigado a fazer sexo comigo? Quem faz, faz porque quer — por prazer.
Na minha visão, quem usa esse termo para apontar ou atacar costuma ser alguém que não está fazendo sexo, ou que gostaria de ter vários parceiros mas está preso a um relacionamento monogâmico, ou não tem coragem de se arriscar. E é ainda mais absurdo quando dizem “os promíscuos não se cuidam”:
Na cidade onde moro, com quase 1 milhão de habitantes, quantas pessoas estão cadastradas tomando PrEP? Não chegam a 1.600 — e mais de 80% são gays. Somos nós, os gays, os promíscuos? Podemos até fazer sexo com várias pessoas sem laços afetivos — e isso pode ser ótimo —, e muitos de nós nos cuidamos sim.
E quanto aos supostos heteros, casados, que saem com gays sem usar preservativo e sem qualquer cuidado — que palavra usar para eles? Muitos desses são os primeiros a apontar gays como promíscuos.
Amigos e família nos criticam; por isso muitas vezes não falamos abertamente com quem saímos, porque sempre virá uma crítica por escolhermos sexo por sexo. Isso é apenas uma forma de viver a vida sexual — no momento ou para sempre — e o que o outro tem a ver com isso?
O mundo já mudou muito, até o significado de algumas palavras. Talvez “promiscuidade” devesse sair do dicionário e ser substituída por um termo neutro ou até positivo para quem escolhe a vida de solteiro e faz sexo com quem quiser.
E você, homem ou mulher que adora chamar um amigo de promíscuo, pense bem: quando conseguir alguém para transar, se essa pessoa não pedir em namoro na hora do ato… você também é promíscuo? Pela sua própria definição, sim.