ATÉ ONDE VAI

 

 

Durante muito tempo eu achei que precisava ser simpático o tempo todo. Sorrir por educação, concordar para evitar desconfortos e manter uma aparência agradável, mesmo quando algo dentro de mim já tinha identificado que aquela pessoa não era exatamente o que demonstrava ser.

Com o tempo, porém, a gente aprende algumas coisas. Aprende que educação e simpatia não são a mesma coisa. Educação é uma escolha. Simpatia é um sentimento. E eu não tenho a menor obrigação de sentir simpatia por quem sei que é falso comigo.

Hoje, quando percebo certas intenções escondidas atrás de elogios exagerados ou de uma gentileza muito ensaiada, não faço questão de disfarçar meu desconforto. Às vezes fecho a cara mesmo. Não por falta de maturidade, mas porque já não tenho energia para atuar em peças das quais não quero participar.

O curioso é que a falsidade quase sempre se acha inteligente. Ela acredita que passa despercebida, que convence, que manipula. E talvez seja por isso que, em algumas situações, eu escolho um caminho diferente. Finjo demência.

Não porque não percebi. Pelo contrário. Percebi tudo.

Mas existe algo fascinante em observar alguém que acredita estar enganando você. Então eu escuto, concordo com a cabeça, faço cara de quem acredita e vou dando corda. Pouca coisa revela mais sobre uma pessoa do que a liberdade de continuar falando sem imaginar que já foi descoberta.

E é impressionante como algumas pessoas vão longe.

Vão tão longe que acabam se entregando sozinhas. Contradizem histórias, mudam versões, exageram personagens e mostram exatamente quem são sem que ninguém precise acusá-las de nada.

Nessas horas eu apenas observo.

Porque a verdade tem uma característica interessante: ela não precisa correr atrás de ninguém. Mais cedo ou mais tarde, ela sempre alcança quem tentou fugir dela.

Por isso, não se trata de guardar rancor ou viver desconfiando das pessoas. Trata-se apenas de entender que nem todo mundo merece a mesma abertura, o mesmo sorriso ou a mesma proximidade.

Algumas pessoas merecem confiança.

Outras merecem distância.

E algumas, de vez em quando, merecem apenas um pouco mais de corda para mostrar, por conta própria, até onde conseguem ir.

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