Há palavras que a gente aprende a ouvir com o tempo. Algumas chegam estranhas, outras provocam riso, e algumas acabam ganhando um significado completamente diferente daquele que tinham quando foram ditas pela primeira vez.
“Papai”. “Daddy”. “Coroa”.
Confesso que, quando ouvi “coroa” pela primeira vez, achei estranho. Afinal, ninguém acorda de manhã aos cinquenta e poucos anos pensando: “Hoje vou ser oficialmente um coroa”. Mas a vida tem dessas coisas. A gente vai entendendo que envelhecer não é um acontecimento que ocorre de uma vez. É um processo. Um dia aparece um fio branco. Depois outro. A barba muda. O cabelo muda. O corpo muda. Os interesses mudam. E, principalmente, muda a maneira como a gente se enxerga.
Hoje, aos 55, não tenho absolutamente nenhum problema com a minha idade.
Nenhum.
Sou filho, sou pai, sou avô. Já vivi o suficiente para saber que a vida não se mede apenas pelo número de anos, mas pelo que a gente fez com eles. Tenho histórias, escolhas, acertos, erros, afetos, perdas, conquistas e uma quantidade razoável de cabelos brancos que faço questão de não esconder.
Foi justamente por isso que achei curiosa uma situação recente.
Recebi no Facebook uma mensagem dizendo: “Adoro coroas”.
Respondi simplesmente: “Valeu”.
Depois fui olhar o perfil. E aí veio a surpresa: eu, 55; ele, 41.
Foi daqueles momentos em que a gente precisa reler para ter certeza de que entendeu direito.
Pensei comigo: talvez “coroa” seja uma expressão usada por homens bem mais jovens, para homens ainda jovens. Talvez eu esteja diante de uma diferença de idade que, dependendo da fase da vida, pode parecer enorme ou quase irrelevante.
Porque 14 anos de diferença não significam a mesma coisa em todas as idades.
Entre alguém de 14 e alguém de 28, são mundos completamente diferentes. Entre 28 e 42, já existe outra dinâmica. Entre 410 e 54, outra ainda. O número pode ser exatamente o mesmo, mas as fases da vida transformam completamente o significado dessa distância.
Foi quando pensei: dois homens podem ter 14 anos de diferença e, ainda assim, pertencer a momentos muito diferentes da existência.
E talvez seja justamente aí que entre uma coisa que considero muito mais importante do que idade: bom senso.
Em determinado momento da conversa, veio a observação de que eu estava “bem grisalho” e parecia muito mais velho que ele.
Bem… eu tinha vontade de responder: ainda bem!
Afinal, o que exatamente deveria acontecer? Eu tenho 55 anos. Seria bastante estranho se eu parecesse ter 25.
O curioso não é alguém perceber que uma pessoa de 55 anos parece mais velha do que alguém de 41. O curioso é transformar isso quase em uma crítica, como se envelhecer fosse um defeito que precisasse ser corrigido.
Eu poderia pintar o cabelo. Poderia pintar a barba, como o “ amigo” em questão faz, poderia tentar esconder os sinais do tempo. Poderia construir uma versão artificial de mim mesmo para parecer alguns anos mais jovem.
Mas para quê?
Eu não tenho vergonha dos meus cabelos brancos.
Eles não apareceram de uma vez. Foram chegando aos poucos, junto com tudo aquilo que a vida trouxe. Cada fio branco é parte de uma história que eu não tenho vontade de apagar.
Existe uma diferença enorme entre cuidar-se e tentar negar quem se é.
Não vejo problema algum em um homem pintar o cabelo ou a barba se ele gosta, se isso faz com que se sinta bem. O problema começa quando a aparência vira uma tentativa desesperada de convencer os outros — ou a si próprio — de que o tempo não passou.
O tempo passou.
E que bom.
Eu não quero voltar a ter 20 anos. Quero ter a experiência que os 55 me deram.
Quero continuar descobrindo coisas, conhecendo pessoas, rindo, me apaixonando pela vida, fazendo planos e, principalmente, podendo olhar para mim mesmo sem precisar esconder a idade que tenho.
Cada fase da vida tem sua beleza.
A juventude tem a descoberta.
A maturidade tem a consciência.
A idade traz repertório.
E o passar dos anos pode trazer uma coisa ainda mais valiosa: tranquilidade para não precisar provar nada para ninguém.
Aos 55, eu já entendi que não preciso parecer mais jovem para ser interessante.
Não preciso esconder o grisalho para ser desejável.
Não preciso diminuir minha idade para caber na expectativa de alguém.
E também não preciso transformar minha idade em um troféu.
Ela simplesmente é minha.
Sou um homem de 55 anos. Grisalho. Pai. Avô. Filho. Com histórias que alguém de 41 anos ainda nem começou a viver — e isso não é uma provocação, é apenas a matemática da vida.
Talvez o episódio tenha me feito pensar justamente nisso: algumas pessoas confundem juventude com valor e aparência jovem com superioridade.
Não é.
O tempo não diminui ninguém. O que pode diminuir uma pessoa é a falta de educação, de percepção, de coerência e, principalmente, de bom senso.
Envelhecer deveria nos ensinar justamente o contrário: a olhar menos para a embalagem e mais para a história que existe dentro dela.
Por isso, quando alguém olha para meus cabelos brancos e enxerga apenas “um homem velho”, eu penso que está vendo muito pouco.
Eu vejo 55 anos.
E 55 anos carregam muita coisa.
Carregam um filho que um dia também foi menino.
Carregam filhos que cresceram.
Carregam netos.
Carregam amores.
Carregam perdas.
Carregam escolhas, histórias.
Carregam cicatrizes.
Carregam experiências que não podem ser compradas nem pintadas.
E, sobretudo, carregam a liberdade de finalmente não precisar parecer aquilo que os outros esperam.
Então, sim, pode me chamar de coroa.
Pode dizer que estou grisalho.
Eu não vou pintar minha história para parecer mais jovem.
Porque, sinceramente, depois de tudo o que a vida me ensinou, descobri que existe algo muito mais bonito do que parecer jovem:
é estar bem resolvido com a idade que se tem.