E há quem diga que eu não seja psicólogo vocês acreditam?
Pois é, nem eu.
Junior é um “paciente” novo. (Vou deixar a palavra paciente entre aspas para evitar aborrecimentos de alguns psicólogos, sem deixar esquecer que desde o primeiro texto deixo bem claro que NÃO sou psicólogo, sou apenas um ouvinte, ou creio que um bom ouvinte de amigos e amigos de amigos – e é destas conversas que saem os textos desta série).
Entra meio acanhado, convido-o a sentar-se, ele se encolhendo no sofá de dois lugares como se ali tivessem mais cinco pessoas. Segura uma mão na outra e pergunta: “É normal termos vontades e nunca falarmos para ninguém?”
Quem sou eu para lhe dizer o que é normal? Mas, você tem estas vontades que as guarda em segredo? Ah! Vontades tenho milhões.
Junior trouxe-me uma pergunta que, se todos nós a falássemos, talvez fosse uma das coisas mais ditas: nossas vontades. Imaginem se todas as nossas vontades fossem ditas. Do jeito que anda o mundo, seríamos crucificados em praça pública, julgados por um júri hipócrita que te acusa, mas à surdina faz coisas bem piores.
Nossas vontades são nossas. O que fazer com elas só diz respeito a nós. Talvez muitas delas realmente melhor nunca dizer a ninguém, mas talvez se não dissermos não as realizaríamos, então…
Tenho muitas vontades, já fiz muitas delas, quero fazer outro tanto, algumas não sei se terei coragem – acho até que tem algumas que nunca faria, se bem que, nunca é muito longe, até prefiro nunca dizer nunca.
Muitas de nossas vontades não passam de devaneios que alimentam a alma e a imaginação, que nos fazem dar aquele suspiro, soltar um sorriso de leve e discreto, enchem nosso peito de uma energia boa – chega quase a ser como se tivéssemos realizado, e que bom que muitas delas dão esta sensação.
Tem, também, aquela vontade que se não for dita nunca será realizada. Hoje mesmo recebi um inbox assim: “Salum, se você escrever um texto sobre ******* vou comentar, só que nos comentários vou falar que morro de vontade de dar uns beijos em você, sentir o gosto da sua boca e o seu cheiro.”
Sim, o inbox é verídico. Se ele não tivesse dito a sua vontade, como eu poderia imaginar e escrever – ou não – o texto que ele pediu? Ou seja, algumas vontades precisam ser verbalizadas para que se tenha uma hipótese de se realizar. Até fiquei com vontade de sentir o gosto da minha boca – o meu cheiro sei qual é, rsrsrsrs.
Existem também algumas vontades que pensamos muito em tê-las, ou melhor, em realizar. Infelizmente vivemos em uma sociedade machista e hipócrita onde, dependendo do que você faça, você é julgado – e não importa o seu caráter, importa o que você veste, com quem você transa, quem você beija. Ou seja, a principal característica pela qual somos julgados e rotulados é o sexo, e estas mesmas pessoas que nos julgam e nos rotulam não vivem o sexo nem uma hora por dia em suas vidinhas medíocres, pois gastam o tempo preocupadas com quem eu ou você fazemos sexo.
Mas alguns de nós – não sei se corajosos, loucos, insanos ou simplesmente nós mesmos – vamos atrás de nossas vontades, sem dizer a ninguém, vamos apenas ao fazer, ao realizar, e muitas vezes nos damos bem e realizamos. Estas são pessoas felizes, realizadas, estão sempre sorrindo, parecendo que viram passarinho verde. Mas isso é de cada um – e também sem esquecer que estas pessoas que se permitem ter vontades e realizá-las estão sempre com um alvo nas costas, são motivos de críticas e julgamentos dos ditos “santos e normais”.
Ah! Se pudéssemos simplesmente viver as nossas vontades, ou dizê-las que seja com a certeza de que não seríamos julgados. Conheço pessoas que confiaram e me disseram da vontade de ficar com outra pessoa do mesmo sexo, para experimentar, e acredito sim nisso, que alguma tenham esta vontade. Mas como se permitir isso se somos julgados, e A SOCIEDADE EXIGE que tenhamos um rótulo grudado no meio das pernas? Porque não podemos apenas ser seres humanos com vontade?
Algumas destas pessoas realizaram esta vontade e nem por isso deixaram de ser, na prática do dia-a-dia, pessoas héteros – vivem esta vida com seus maridos, mulheres e filhos, mas realizaram esta vontade e quem sabe aí tiveram a certeza de que não é isso que curtem ou que lhes dá tesão e prazer.
Já com os homens existe sim muitos que já fizeram isso, mas andam com o c* na mão de medo que alguém saiba, mesmo tendo escolhido ficar do lado hétero da coisa. Mas ainda existem aqueles que não o fazem, que não matam essa vontade, se coçam, se contorcem de vontade e criticam os outros – já estes eu penso que eles têm medo de gostar, hahahahahahaha, beijar mulher é ótimo, homem também.
Mas, cada um com suas vontades. Cada um com seus segredos.
Quanto a você, Júnior, dependendo de quais forem as suas vontades, diga, grite, realize e ligue o FODA-SE. Não se esqueçam de uma coisa: por mais que o foda-se esteja ligado, algumas vezes é melhor passar vontade. Hoje mesmo tive vontade de conversar com uma pessoa, mas pensei bastante e julguei que não preciso de uma cobra embaixo do braço. Passei vontade, rsrsrsrs.
Quanto ao possível comentário…
Viu, e dizem ainda por aí que eu não sou psicólogo!